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Basta! – O Brasil exige paz,
segurança e justiça

( Manifesto entregue a autoridades de Governo, Ministro da Justiça e Presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, no dia 8 de novembro de 2000, durante a Caravana das Mães contra as Armas e a Violência)

O Comitê Nacional de Vítimas da Violência _ Parceiros da Paz reúne entidades, familiares e amigos de pessoas vitimadas pela violência no Distrito Federal e outros estados brasileiros, atuando com o apoio de cidadãos e empresários solidários.

Os objetivos principais do Comitê são prestar assistência e apoio psicológico e jurídico às famílias das vítimas; desenvolver campanhas preventivas e educativas de combate à violência; defender medidas e projetos de lei que contribuam para assegurar justiça, paz e segurança à população; defender e propor políticas públicas e projetos de fortalecimento das instituições públicas de defesa do cidadão e da sociedade; propor políticas públicas e ações destinadas a promover a substituição da cultura de violência pela cultura da paz.

Por que lutar pela cultura da paz?

As tragédias vividas pelos membros do Comitê Nacional de Vítimas da Violência e por todos aqueles que perderam pessoas queridas para a violência tecem um painel do quadro de insegurança que cresce em proporções inaceitáveis, na razão direta da capacidade demonstrada pelo poder público de se manter inoperante em relação às medidas que precisam ser tomadas, em caráter emergencial.

Comparar, em anexo, os cartazes da primeira campanha do Comitê Nacional de Vítimas da Violência - em maio de 1999 -, e da segunda, lançado durante a Caravana de Mães contra as Armas e a Violência.

A violência está atingindo indistintamente todas as classes sociais e faixas etárias. Crimes bárbaros acontecem tanto à noite quanto à luz do dia, em lugares públicos, e os criminosos se utilizam de quaisquer instrumentos para consumar os crimes - da arma de fogo às próprias mãos. O quadro de violência que assusta, hoje, o país, está enraizado na impunidade e é alimentado por causas diversificadas. Uma delas é o desenvolvimento da cultura da violência, vivida passivamente pelas famílias brasileiras e pelo poder público nas últimas décadas, especialmente. É ela que faz com que a sociedade e o poder público assistam passivamente ao crescimento desenfreado da violência, como se os assassinatos cruéis que se cometem a cada instante no país fossem apenas peças de ficção, como cenas de um filme ou um seriado de TV.

Acreditamos, por isso, que nenhuma medida isolada será capaz de conter a violência. É preciso um compromisso de toda a sociedade, em todas as esferas de poder, para a substituição da cultura da violência pela cultura da paz. Isso implica o desenvolvimento de ações conjuntas, envolvendo família, sociedade, educação e poder público.

A partir dessa convicção, o Comitê está defendendo uma pauta mínima para essas ações, que apresenta, a seguir, ao Ministério da Justiça. Espera, assim, contribuir para a definição das medidas que precisam ser tomadas de forma conjunta pelo poder público e sociedade civil, como ponto de partida para o desenvolvimento da cultura da paz e não violência.

Medidas emergenciais:

  1. Aprovação imediata de lei que proíba o comércio e o porte de armas por civis. Será o passo inicial, para simbolizar a vontade política de combater a violência e desenvolver a cultura da paz.
  2. Criação da CPI das Armas, como forma de sustentação do respeito e cumprimento à nova lei proibindo o comércio e o porte de armas por civis. A CPI - conforme proposta do Projeto Renascer o Brasil na Paz, será destinada à apuração dos responsáveis pela comercialização de armas no Brasil e à indicação dos focos de distribuição de armas clandestinas pelas ruas.
  3. Criação da Comissão Nacional de Indenização e Apoio Jurídico e Psicológico aos Familiares de Vítimas da Violência, vinculada à Comissão Nacional de Direitos Humanos.
  4. Compromisso do Governo Federal e Congresso Nacional com a manutenção da Lei dos Crimes Hediondos e o rigor absoluto no cumprimento das penalidades impostas aos homicídios qualificados.

Pauta Mínima de Ações:

1 – Desenvolvimento de Planos de Segurança
Preventiva, abrangendo:

  • Levantamento do quadro específico de segurança de cada cidade e região.
  • Policiamento ostensivo permanente.
  • Projetos de valorização e qualificação da Polícia.
  • Desenvolvimento de projetos de segurança pública em parceria com a comunidade, com campanhas de conscientização sobre a necessidade e a importância do registro e controle das ocorrências criminais, mesmo que aparentemente pequenas.
  • Prestação de contas mensal, à população, dos números e do mapeamento da criminalidade, das providências tomadas e dos resultados obtidos.

2 – Poder Judiciário

  • Agilização e modernização da Justiça.
  • Aumento do número de Promotorias e Delegacias Especializadas.
  • Criação de Pequenos Juizados Criminais

3 – Legislação

  • Adequação das leis penais à realidade do país e à necessidade de se fazer justiça e restaurar o verdadeiro valor da vida, desqualificado com os sucessivos benefícios assegurados aos autores de homicídios, incompatíveis com a gravidade e as conseqüências do crime cometido.

Dentro desse princípio:

  • Instituir penas alternativas de prestação de serviços comunitários para os delitos leves, não incluídos, aí, os delitos de trânsito que resultem em morte.
  • Promover um "mutirão judicial e comunitário" para uma rápida avaliação da situação em que se encontram os presos condenados por delitos leves, visando à conversão de suas penas em serviços comunitários e à sua conseqüente reintegração à sociedade, o que poderá ser feito em parcerias com empresas e instituições de defesa dos direitos humanos.
  • Promover plebiscito para que a população decida sobre a aprovação do projeto de lei de iniciativa popular entregue ao Congresso Nacional em 1999, e que institui prisão perpétua em colônia penal agrícola para os homicídios qualificados.
  • Instituir agravantes e penas severas para qualquer tipo de violência induzida por preconceitos raciais, sociais ou de orientação sexual.
  • Instituir lei rígida e mecanismos de controle do comércio e porte de armas.
  • Redução da maioridade penal, para acabar com o injustificado contrasenso entre a permissão para a responsabilidade de votar e o não reconhecimento da responsabilidade penal para o jovem. Se um jovem de 16 anos é reconhecido como capaz na hora de eleger, por exemplo, a pessoa que vai comandar os destinos do país, por que tratá-lo como incapaz na hora de saber se o que está cometendo é um crime ou não?

4 – Políticas Públicas

  • Fortalecimento dos conselhos tutelares e a criação de novos onde ainda não existem.
  • Realização de estudo da influência das mídias no processo de educação e formação de valores da sociedade, e criação de um Conselho de Ética contra a violência nos meios de comunicação.
  • Investimento no lazer público, em parcerias com a comunidade.
  • Desenvolvimento de políticas integradas de assentamentos e urbanização, com valorização e instituição de áreas públicas de lazer, cultura, leitura, preservação ambiental e valorização da vida do ser humano e da convivência em comunidade.
  • Formalização do compromisso das escolas e instituições com a substituição da cultura da violência pela cultura da paz e da solidariedade.
  • Maior controle, fiscalização e inibição da distribuição de fitas de vídeo, CD Roms e outras mídias eletrônicas e impressas, cujo conteúdo apresente cenas de violência. A sugestão é que esse tipo de material seja exposto apenas em catálogos fechados e salas reservadas a maiores de 18 anos, a exemplo de materiais referentes a sexo explícito.
  • Inibição, diminuição e até mesmo proibição de propaganda de bebidas alcoólicas, a exemplo da propaganda de cigarros.
  • Maior rigor no controle da venda de bebidas e cigarros a menores de 18 anos.
  • Maior rigor na fiscalização de bares e casas noturnas, principalmente quanto à venda de bebidas alcoólicas e freqüência de menores.
  • Regulamentação, controle e fiscalização das empresas de segurança particulares, cujo despreparo leva à inversão de papéis: ao invés de proteger a população, muitas vezes tornam-se seus algozes.
  • Desenvolvimento de políticas e projetos de valorização do ser humano, respeito às diferenças e combate rigoroso a qualquer tipo de violência por preconceito racial, religioso, socioeconômico e de orientação sexual.
  • Desenvolvimento de programas regionais capazes de abrir novas fontes de renda e emprego, para assegurar condições ao trabalhador de viver dignamente com sua família em sua região de origem.
  • Fiscalização e controle das academias de artes marciais.
  • Rigor no cumprimento do Código de Trânsito.
  • Criação e fortalecimento de Conselhos de Segurança Comunitários, com a participação das instituições e lideranças reginais e de bairro e, especialmente, com incentivo à participação da população.

Em memória das nossas vítimas, firmamos, aqui, o nosso compromisso com a construção de um Brasil melhor, mais humano, justo e solidário.

Brasília, 8 de novembro de 2000.

Não queremos que ninguém sinta a dor que nos levou a fazer esta campanha.

  • Valéria de Velasco
  • Francisco Régis
  • Kléber Ranieri

 


CONVIVE – Comitê Nacional de Vítimas da Violência.
http://www.convive.org.br

Desarmamento
Armas de Fogo: proteção ou risco?
Antônio Rangel Bandeira e Josephine Bourgois – VivaRio
Desarmamento: evidências científicas
Marcos Rolim
Mortes Matadas por armas de fogo no Brasil
Julio Jacobo Waiselfisz – ONU
Impacto da campanha do desarmamento no índice nacional de mortalidade por arma de fogo
Ministério da Saúde (MS) – Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS)
Vidas poupadas
Unesco – Ministério da Saúde (MS)
Fontes de Abastecimento do Mercado Criminal de Armas
Secretaria de Segurança Pública – Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro

Artigos
Adeus à democracia
Gláucio Ary Dillon Soares
IUPERJ
Um modelo democrático para implementar mudanças
Eduardo Capobianco
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