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Doze razões para proibir a venda de armas
e duas propostas

Rubem César Fernandes/Viva Rio

1. A arma de fogo ameaça as pessoas mais próximas. Na hora da compra, fala-se nos alvos externos, humanos (assaltantes) ou da natureza (a caça). Mas no dia a dia, as tensões que mais nos esquentam a cabeça são aquelas que permeiam nosso círculo interno de relações. É aí que a presença da arma aumenta as chances do desatino. No Rio de Janeiro, das ocorrências com armas de fogo em que a polícia consegue identificar vítimas e agressores, cerca de 35% envolvem pessoas conhecidas _ parentes, colegas, vizinhos. Dos casos de conflitos domésticos relatados à polícia do Rio com feridos ou mortos, 62% resultam do uso da arma de fogo. Nos Estados Unidos, em 1995, 11% das vítimas de homicídio foram assassinadas por familiares e 34% por conhecidos. Apenas 15% foram vítimas de estranhos.

2. Uma arma ao alcance da mão transforma conflitos banais em tragédias irreversíveis. É a briga no bar, no trânsito, nas torcidas de futebol. Na cidade do Rio de Janeiro, em 1998, contando apenas os casos esclarecidos pela polícia, que formam pequena parcela do total de ocorrências, cerca de 540 pessoas foram feridas ou mortas por armas de fogo nestas circunstâncias.

3. É fácil produzir acidentes com armas de fogo. No Rio de Janeiro, em 1998, das pessoas feridas ou mortas por arma de fogo, cerca de 12% foram vítimas acidentais.

4. A arma de fogo é mais eficaz para agredir do que para defender. A vítima é quase sempre surpreendida pelo agressor e não tem tempo para reagir. Segundo o Ministério da Justiça, mais de 90% dos casos em que o cidadão tenta reagir com uma arma a um assalto resultam em tragédia para a vítima.

5. A arma de fogo aumenta, imediatamente, a gravidade do problema. A presença da arma agrava a violência do confronto. Paradoxalmente, a vítima armada corre mais riscos do que a que está desarmada. Pior, a lesão por arma de fogo tem grandes chances de ser fatal. Na cidade do Rio de Janeiro, em 1998, das vítimas de armas de fogo registradas pelo sistema de saúde, apenas 23% sobreviveram à primeira internação.

6. A arma de fogo não é a causa, mas é, sim, o principal instrumento da violência. No Rio de Janeiro, segundo dados da polícia e da saúde, cerca de 68% dos homicídios são causados por armas de fogo.

7. O uso da arma de fogo está fora de controle. O problema não está apenas na quantidade de armas de fogo em circulação, mas no uso abusivo que se faz delas. Os criminosos atiram demais, a polícia responde atirando demais e as pessoas, cheias de medo, querem se armar, tomadas pela ilusão de que, no perigo, serão elas a dar o primeiro tiro. Esta é uma dinâmica patológica que cresceu a partir dos anos oitenta, como uma epidemia social. A arma de fogo é o principal veículo transmissor desta epidemia, um instrumento que agrava, multiplica e simboliza a violência inerente aos conflitos cotidianos. Se aprendemos a combater a malária eliminando o mosquito transmissor, devemos igualmente compreender que o controle das armas de fogo é indispensável para a contenção da violência.

8. Os adolescentes e os jovens são os que mais se expõem aos riscos das armas de fogo. E isto não ocorre apenas com jovens em situação de risco social, moradores de favelas e de periferias pobres. Jovens de classe média também são seduzidos pela violência armada. Armas de fogo aparecem em escolas e festas jovens. Na cidade do Rio, em 1998, as armas de fogo sozinhas mataram mais adolescentes de 15 a 19 anos do que todas as outras causas de morte reunidas, incluindo doenças, trânsito e outras causas externas. Crianças de 10 a 14 anos passam a contar nessas estatísticas, de modo crescente. A taxa de mortes por arma de fogo entre rapazes de 20 a 29 anos, no Rio, em 1998, foi de 201 por 100 mil, enquanto que para as moças da mesma idade foi de 9 por 100 mil. Ou seja, tivemos mais de 20 rapazes assassinados por arma de fogo para cada moça. Vai faltar homem nesta geração!

9. A polícia, instituição fundamental para o controle da violência, está no centro do tiroteio, tornando-se cativa da sua lógica. Atirar na polícia deixou de ser um tabu, banalizou-se. No Rio, em 1997, 50% dos ferimentos e mortes infligidos aos policiais foram produzidos por armas de fogo. Nos EUA, país conhecido pela cultura armada, essa taxa é de 6%. Submetidos a uma tamanha agressão, os policiais são tentados a se comportar de modo igualmente violento. O controle das armas de fogo é uma condição para que possamos ter, por fim, uma polícia cidadã e eficaz.

10. A maior parte das armas do crime é de fabricação nacional. Segundos os registros da polícia, 73% das armas apreendidas no Rio são brasileiras; e 78% delas são revólveres e pistolas, ou seja armas que até aqui eram consideradas legais para a venda ao público em geral. As armas longas, na maior parte estrangeiras, não chegam a 20%. É falsa, portanto, a idéia de que as armas brasileiras são do bem, a serviço da defesa do cidadão, enquanto que as armas do mal seriam estrangeiras. Pouco sabemos sobre os caminhos que levam essas armas da fábrica às redes criminosas, mas uma coisa é certa: as armas começam legais e deslizam para a ilegalidade. Proibindo o comércio legal, fechamos, com certeza, uma importante fonte de fornecimento do comércio ilegal.

11. A proibição do comércio de armas deve ser radical. Leis sobre o comportamento individual são difíceis de pegar no Brasil e quase impossíveis de fiscalizar. Por isto, o controle sobre o porte de armas não é suficiente. A proibição do comércio é mais viável, pois depende de licença e de alvará, que são concessões do Estado. E as exceções devem ser evitadas, pois a cada brecha que se abre (por exemplo, para colecionadores), multiplica-se as chances de desvios promovidos pela nossa notória malandragem.

12. A proibição do comércio é importante, mas não basta. O número de armas em circulação é grande o bastante para alimentar o comércio clandestino por muito tempo. No impulso desta lei, é urgente que se faça do controle da posse e do uso de armas um tema central das políticas de segurança pública.

Duas propostas:

a. A exportação para comerciantes particulares de países vizinhos também deve ser proibida. Se a maioria das armas usadas no crime são brasileiras, e se já sabemos que a exportação para o Paraguai e a Argentina é um dos artifícios importantes para o abastecimento do tráfico ilegal de armas no país, é fundamental que esta rota seja formalmente fechada. No mesmo sentido, negociações devem ser abertas com países exportadores (Argentina, EUA, Inglaterra, Alemanha, Suíça etc) para que proíbam a exportação de suas armas para negociantes particulares de armas no Paraguai.

b. A informação sobre armas leves no Brasil deve ser de acesso público. Sem informação, não há política nem controle que se sustentem. As informações deveriam estar na Internet, para que todos os interessados possam investigá-las. Os dados que utilizei neste artigo foram produzidos por pesquisadores do ISER, em colaboração com a Secretaria Municipal de Saúde e com as Polícias Civil e Militar do Estado do Rio de Janeiro. É por isto que se referem apenas ao Rio. Na verdade, o problema tem a mesma gravidade em outras Regiões Metropolitanas e tende a se difundir pelas cidades médias. Quem duvida que consulte a Síntese de Indicadores Sociais para 1998 que o IBGE acaba de publicar.


CONVIVE – Comitê Nacional de Vítimas da Violência.
http://www.convive.org.br

Desarmamento
Armas de Fogo: proteção ou risco?
Antônio Rangel Bandeira e Josephine Bourgois – VivaRio
Desarmamento: evidências científicas
Marcos Rolim
Mortes Matadas por armas de fogo no Brasil
Julio Jacobo Waiselfisz – ONU
Impacto da campanha do desarmamento no índice nacional de mortalidade por arma de fogo
Ministério da Saúde (MS) – Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS)
Vidas poupadas
Unesco – Ministério da Saúde (MS)
Fontes de Abastecimento do Mercado Criminal de Armas
Secretaria de Segurança Pública – Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro

Artigos
Adeus à democracia
Gláucio Ary Dillon Soares
IUPERJ
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Presidente da Diretoria do Instituto São Paulo Contra a Violência e do Conselho da Transparência Brasil.
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“Doze razões para proibir
a venda de armas”
Rubem César Fernandes,
Viva Rio - RJ.
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Editorial do Jornal Correio Braziliense
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