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Artigo
Um momento histórico
Correio Braziliense, 26/10/2003
Os brasileiros que atenderam à convocação
das ONGs que trabalham pela cultura da paz e foram às ruas
pedir o desarmamento sabem muito bem onde dói a ferida
de um país que em apenas um ano, 2002, registrou cerca
de 45 mil pessoas mortas a tiros, e onde as maiores vítimas
da violência são os jovens na faixa dos 15 aos 24
anos.
Os milhões de brasileiros que acompanharam a queda-de-braço
que se travou na Câmara dos Deputados em torno da aprovação
do Estatuto do Desarmamento _ aprovado na última quinta-feira
_ podem, sem medo de errar, apontar o grande vencedor: a opinião
pública. O envolvimento da população na discussão
dessa medida crucial para o efetivo combate à violência
no país foi decisivo para evitar que o projeto de lei tivesse
o mesmo destino das 70 propostas que o antecederam no Congresso
Nacional, soterradas por manobras e pressões da bancada que
serve aos interesses do lobby da indústria das armas.
O velho ditado vox populi, vox Dei não se fez conhecido
e respeitado à toa. Os milhares de brasileiros que atenderam
à convocação das organizações
não-governamentais que trabalham pela cultura da paz e foram
às ruas pedir o desarmamento sabem muito bem onde dói
a ferida de um país que em apenas um ano, 2002, registrou
cerca de 45 mil pessoas mortas a tiros, e onde as maiores vítimas
da violência são os jovens na faixa dos 15 aos 24 anos.
O número envergonha e assusta a Nação _ que,
deve-se ressaltar, não está em guerra _ e leva a ONU
a apontar o Brasil como o país onde mais se mata com armas
de fogo, em todos os continentes. Levantamento da Canadian Foreign
Policy mostra que o país tem apenas 2,8% da população
mundial, mas responde por 11% dos assassinatos cometidos com arma
de fogo, em todo o mundo.
Nunca é demais relembrar os números dessa liderança
inaceitável no ranking da morte exercida pelo Brasil. A exemplo
dos quadros de autoridades que tradicionalmente integram a decoração
de órgãos públicos, eles deveriam ficar inscritos
em todas as paredes, a lembrar o compromisso com aquele que deveria
ser o dever de casa principal dos homens públicos _ dar a
sua contribuição no sentido de assegurar a cada brasileiro
o seu bem principal, o direito à vida. Direito sonegado a
parentes e amigos de grande parte da população que
foi às ruas no Rio de Janeiro, Recife, Brasília e
São Paulo pedir aos parlamentares que votassem o desarmamento,
formada por familiares de vítimas da violência crescente
que envergonha e assusta o país.
A outra parte é engrossada por cidadãos solidários
e patriotas que não se omitem ante a gravidade desse quadro
sangrento, por acreditarem que o esforço para revertê-lo
é tarefa de cada um e, fundamentalmente, por terem percebido
a real dimensão desse momento histórico. Nele, o caminho
para a segurança e a paz que tanto se pede é apontado
com clareza incontestável, sedimentado em números
levantados por instituições públicas e privadas
nacionais e internacionais, em pesquisas científicas de respeitados
profissionais de universidades brasileiras e em propostas concretas
e factíveis, que devem ser colocadas em prática de
imediato.
O recado da opinião pública encontrou eco nos parlamentares
comprometidos com a defesa dos interesses e das reais necessidades
da população. Gente que honra o voto recebido dos
cidadãos de bem que lhes depositaram a confiança nas
urnas. Que não se aproveita da situação de
medo de um povo acuado pelo crescimento da criminalidade para lhe
vender a perigosa ilusão de que, se armando, cada um estará
defendendo a si e à sua família. Que está atenta
aos riscos a que se expõe todo cidadão, independentemente
de status, idade ou classe social, de engrossar as estatísticas
da tragédia cotidiana que abala milhões de lares brasileiros.
Ao comemorar esse primeiro passo, a Nação não
perde de vista a urgência dos outros que devem sucedê-lo.
O mais importante, sem dúvida, é assegurar a toda
a população, por meio do referendo popular, o direito
de fazer com que a sua voz continue a sustentar as transformações
reivindicadas. Os parlamentares que defendem a consulta à
população sabem que, muito mais do uma simples manifestação
de vontade, o referendo implica o comprometimento da sociedade civil
com a mudança de cultura que se faz necessária para
que a nova lei seja respeitada e cumprida. A história recente
do país mostra que não há erro. Quando o Congresso
Nacional e o povo unem forças, não falta sabedoria.
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