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A vítima armada

Maria de Lourdes Abadia
Vice-Governadora do DF

Por que uma pessoa compra uma arma de fogo? Para matar, claro. O motivo é sempre a legítima defesa da vida. Mas quando o revólver é disparado, uma tragédia sempre é o resultado. Um marido enciumado mata a mulher, num momento de explosão. Um amigo atira no outro numa briga banal de bar. Um torcedor dispara contra quem carrega a bandeira do time adversário. Uma fechada no trânsito termina em morte. Um cidadão sozinho e doente tira a própria vida. Uma criança fere outra numa brincadeira. Um pai de família morre ao reagir a um assalto.

Foi ouvindo o relato triste de um jovem, de pouco mais de 18 anos, no Guará, há um mês, que resolvi me engajar na Campanha Nacional do Desarmamento, a favor do sim no referendo marcado para o dia 23 de outubro. Esse jovem, que para mim se tornou um símbolo da luta em favor da vida, foi à delegacia entregar a arma comprada pelo pai para defender a família.

Mantido no porta-luvas do carro, o revólver não salvou ninguém. Pelo contrário. Ao tentar dispará-lo contra ladrões que o assaltavam, a vítima foi alvejada com cinco tiros pelos criminosos, muito mais preparados para matar do que um cidadão de bem. Hoje aquele jovem tem certeza de que a arma foi responsável pelo funeral de seu pai. A história, de cortar o coração, ilustra as estatísticas brasileiras e mundiais.

O pai desse jovem certamente não sabia que a chance de sair ileso, sem ser ferido ou morto, de uma situação como aquela é pequena. Não sabia que as estatísticas registradas no país contradizem a máxima, usada pelos críticos do Estatuto do Desarmamento, de que não adianta desarmar as pessoas se os bandidos continuarem portando pistolas.

Um estudo intitulado “Também Morre quem atira”, feito há dois anos, pela Secretaria de Segurança de São Paulo, apontou que em apenas 13,8% dos casos o cidadão armado consegue evitar um roubo com sucesso. A possibilidade de ele morrer é muito maior. Uma outra pesquisa sobre o tema, realizada pela Secretaria Nacional de Segurança Pública, também é significativa. Mostra que a chance de uma vítima armada morrer durante um assalto é 56% maior do que se estivesse desarmada. E com um agravante: o revólver do cidadão, tomado depois do crime, ainda poderá ser usado para matar outros inocentes.

Claro que restringir o uso de armas de fogo e de comercialização de munições não será suficiente para acabar com os crimes. Mas a medida vai, com certeza, reduzir drasticamente os homicídios causados por ações impensadas, por pessoas que num momento de explosão atiram por impulso, sem medir as conseqüências, simplesmente porque o revólver está à mão. Se conseguirmos evitar essas tragédias, já será muito.

A banalização da violência é um dos principais males da nossa sociedade. Que pai e mãe não perde o sono à noite quando seu filho adolescente sai de casa para um programa saudável, mas sob o risco de não voltar? O Brasil aparece com destaque entre os países onde as armas de fogo mais matam, segundo dados da Organização Mundial de Saúde. Uma providência precisa ser tomada com urgência para evitar tragédias. E a população já começa a comemorar resultados positivos.

Em 2004, 3.234 pessoas foram poupadas com a redução do uso de armas de fogo, numa comparação com os registros de óbitos de 2003. A boa notícia, divulgada pelo ministro da Saúde, Saraiva Felipe, está relacionada ao sucesso da mobilização da sociedade. Tocada pela iniciativa de reduzir as mortes trágicas, a população começou a dar a sua contribuição. Caiu em 8,2% o uso de armas no país, com o recolhimento de 443 mil revólveres no último ano.

Um guerreiro da paz não pode portar um revólver. Vamos deixá-los para a polícia, que tem treinamento especial para usá-los. Nossa próxima luta será melhorar, sempre mais, o trabalho de quem tem a função institucional de zelar pela nossa segurança. Aos poucos, conseguiremos livrar o país do vexame de figurar como um dos recordistas de violência. Quem vai lucrar são todos os homens e mulheres de bem.

Maria de Lourdes Abadia
Vice-Governadora do DF


CONVIVE – Comitê Nacional de Vítimas da Violência.
http://www.convive.org.br

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Mortes Matadas por armas de fogo no Brasil
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Impacto da campanha do desarmamento no índice nacional de mortalidade por arma de fogo
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Vidas poupadas
Unesco – Ministério da Saúde (MS)
Fontes de Abastecimento do Mercado Criminal de Armas
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