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Artigo/Tema para debate
Uma arma
LUIZ ANTONIO ASSIS BRASIL
Escritor e Professor
De uma arma pode-se esperar apenas morte, destruição, pânico e terror. Uma arma remete-nos à brutalidade dos séculos em que habitávamos as grotas. Uma arma é a bestialidade em forma metálica e reluzente. Uma arma ensina os jovens a não acreditar na força do bem, da persuasão e do exemplo. Uma arma é a máscara trágica de todos nós. Uma arma é a falência da civilização que levamos milênios para construir.
Uma arma não é garantia de segurança: quantos milhares já morreram com suas armas na mão? Uma arma não significa nem força, nem ousadia, nem tenacidade, nem retidão, nem honradez, nem heroísmo. Uma arma não conduz a nada, nem constrói nada, nem nos assegura um lugar entre os incólumes.
Quem leva uma arma, seja quem for, está pronto a ferir e a matar. Quem leva uma arma envergonha-se de olhar para uma criança. Quem leva uma arma descrê que o ser humano possa ser integrado à vida útil e proveitosa. Quem leva uma arma não dorme à noite, compartindo com os grilos e os cães vadios suas noites assombradas. Quem leva uma arma, seja quem for, vive em estado de triste e perene desventura.
Nada justifica uma arma, nem o temor, nem o ódio, nem a vingança, nem a inveja, nem nossa pretensa paz. Nada justifica uma arma, nem nossas paixões contrariadas, nem o mordaz que nos olha com desdém e rancor. Nada justifica uma arma, nem o pranto derramado sobre nossos mais queridos seres, nem o roubo de uma carteira; aliás, o que é uma carteira perante a Eternidade que nos espera logo ali?
O pior é quando o Estado desiste de si mesmo e dá armas a seus cidadãos, corrompendo-os no que eles têm de inocente e belo. O pior, ainda, é a presunção de que o indivíduo será melhor com uma arma à cintura ou debaixo do travesseiro; na verdade, quem tem uma arma só alimenta o seu lado sombrio. Por dar armas a seus cidadãos, a maior potência do mundo assiste a massacres coletivos de escolares. Com essas armas consentidas, um celerado adentra um parque e mata namorados, anciãos, trucida mães que amamentam seus bebês, liquida adolescentes e por fim dá um tiro na própria cabeça. Com essas armas, os cidadãos da maior potência do mundo transformam-se em ferozes artefatos de extermínio.
A lógica fala por si, é tão clara como um dia solar: quanto mais armas, maior violência. Por mais que repassemos todas as culturas do mundo desde que elas existem, nunca se ouviu dizer que mais armas resultassem em maior paz, concórdia e felicidade entre os homens. E para a felicidade, a concórdia e a paz é que somos feitos.
LUIZ ANTONIO ASSIS BRASIL Escritor e professor da PUC-RS |